Steel Frame: construção a seco entra nos canteiros de obra do Brasil com vantagens ecológicas

10/06/2026 | Notícia

Enquanto a construção civil brasileira ainda ecoa o barulho das betoneiras e o cheiro do cimento fresco, um método mais silencioso começa a disputar espaço nos canteiros de obra: o steel frame. O sistema, que substitui a alvenaria convencional por perfis de aço galvanizado montados a seco, responde atualmente por cerca de 3% do mercado nacional

Embora ainda seja minoritário, o modelo vem sendo adotado em empreendimentos residenciais e comerciais, impulsionado por prazos mais curtos de execução e pela redução de resíduos no canteiro. Diferentemente da construção tradicional, baseada em tijolos e concreto moldado no local, o steel frame opera com estrutura leve pré-dimensionada, montada a seco, com parafusos e componentes industrializados.

O sistema utiliza perfis de aço galvanizado como base estrutural. O fechamento é feito com placas aplicadas nos lados externo e interno, formando painéis. No interior das paredes, camadas de lã de vidro contribuem para o isolamento térmico e acústico — desempenho que, segundo fabricantes —pode superar o da alvenaria convencional, a depender do projeto e da execução.

Apesar de ainda não competir de igual para igual com a alvenaria convencional, o sistema segue em expansão. Empresas do setor projetam crescimentos expressivos nos próximos anos, impulsionados sobretudo por obras de médio porte, habitação unifamiliar e empreendimentos que priorizam prazos curtos e maior previsibilidade de custos.

A Innova Steel, um dos principais grupos do segmento, saltou de R$ 320 milhões de faturamento em 2024 para uma projeção de R$ 480 milhões em 2025, mirando R$ 1 bilhão até 2028. Já a Espaço Smart, que se define como o maior ecossistema de Steel Frame da América Latina, acumula 1 milhão de metros quadrados construídos em dez anos de operação e mantém um crescimento anual acima de 40%.

"O Steel Frame está transformando a construção civil no Brasil. A experiência mostra que é possível entregar empreendimentos de grande porte com mais velocidade, qualidade e sustentabilidade, mantendo a previsibilidade de prazos e orçamentos", explica Fernando Scheffer, sócio-fundador da Espaço Smart, já conta com 46 lojas físicas em 19 estados do Brasil.

"É um sistema construtivo industrializado, que substitui o modelo artesanal por um processo muito mais planejado, técnico e previsível", resume Heverton Cardoso, CEO da Innova Steel. "Grande parte do processo acontece fora do canteiro. Os projetos saem 'impressos' da fábrica, com medidas exatas, o que reduz erros, retrabalhos e desperdícios."

Na prática, isso significa que boa parte da obra é resolvida na indústria. As estruturas chegam pré-fabricadas ao canteiro, onde são montadas como um grande quebra-cabeça de peças de aço. O resultado é uma construção mais limpa, organizada e rápida - em alguns casos, o prazo pode ser reduzido em até 60% comparado à alvenaria tradicional.

 

Das escolas de BH ao Cacau Park: a versatilidade do método

A diversidade de aplicações do Steel Frame é ampla. Em Belo Horizonte, sete novas Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs) estão sendo construídas com materiais fornecidos pela Espaço Smart. Cada unidade terá 1.164 m² distribuídos em dois pavimentos, e a expectativa é que fiquem prontas em um terço do tempo de uma construção convencional.

"Minas Gerais é um dos estados precursores na construção em steel framing. Desde 2016 fornecemos para obras públicas como UBS e CMEIs. É uma relação de longo prazo onde o estado especifica neste método construtivo e nós fornecemos para as construtoras vencedoras das licitações", conta Scheffer.

No outro extremo da escala, está o Cacau Park, parque temático da Cacau Show que está sendo construído em Itu (SP) e deve ser inaugurado em 2027. O empreendimento, que ocupará mais de 900 mil m² e receberá cerca de 3 milhões de visitantes por ano, utilizará 500 toneladas de aço fornecidas pela Espaço Smart. Todas as edificações - exceto a estrutura dos brinquedos propriamente dita - serão feitas em Steel Frame.

"Precisávamos unir agilidade e precisão, sem comprometer a segurança nem a experiência do visitante. A industrialização da construção nos permite cumprir o cronograma, otimizar recursos e entregar um parque temático de padrão internacional", afirma Vanessa Costa, Diretora de Negócios do Cacau Park.

A Innova Steel também acumula projetos de grande porte em seu portfólio, como o Colégio Santa Cruz, o Centro de Treinamento do Red Bull, diversos prédios corporativos e a Linha 17 do Metrô de São Paulo. "Esses cases mostram que o Steel Frame não é uma solução restrita a um tipo específico de obra. Ele se adapta muito bem a diferentes escalas e necessidades", pontua Cardoso.

 

A conta 'verde': economia de água, CO2 e árvores

Segundo dados da Espaço Smart, as obras da empresa já garantiram a preservação do equivalente a 880 mil árvores que deixaram de ser cortadas, geraram 60% menos resíduos sólidos e emitiram cerca de 73% menos CO2 do que construções convencionais em alvenaria.

A economia de água é particularmente significativa. "O steel framing utiliza 10 vezes menos água e possui 2-3% de desperdício de material comparado a 25-30% de uma obra alvenaria", explica Scheffer. No total, a empresa calcula ter poupado cerca de 284 milhões de litros de água desde 2015 - o equivalente a aproximadamente 114 piscinas olímpicas.

"Enquanto a alvenaria depende de grandes volumes de água para concreto, argamassa e cura, no Steel Frame o uso é residual, concentrado basicamente em limpeza e pequenos acabamentos. Dependendo do tipo de obra, essa economia pode ultrapassar 70%", complementa Cardoso.

Além disso, uma construção em Steel Frame possui índice de 90% de reciclabilidade dos materiais utilizados, tendo o aço e o gesso em drywall como seus principais insumos. "O aço é 100% reciclável e possui uma cadeia de reciclagem consolidada no Brasil. Diferente da construção tradicional, que gera grandes volumes de entulho, a construção a seco já nasce com uma gestão de resíduos mais eficiente e planejada", destaca Cardoso.

Esses cálculos são baseados em comparações técnicas entre métodos construtivos, análises reais de consumo em obras executadas e benchmarks internacionais. A Espaço Smart criou em 2015, junto ao Green Building Council, o "Sustentômetro" - uma ferramenta que contabiliza o saldo ambiental positivo gerado pela substituição da alvenaria pelo Steel Frame.

 

Desempenho térmico e acústico: ganho invisível

Para além dos números ambientais, há um benefício que impacta diretamente quem vai usar as edificações: o conforto termoacústico. "As soluções em Steel Frame oferecem desempenho térmico e acústico muito superior ao da alvenaria tradicional, que em grande parte dos casos não possui esses tratamentos", explica Cardoso. "Dependendo da solução adotada, é possível alcançar ganhos de até 60% em eficiência térmica e acústica, impactando diretamente conforto, consumo de energia e qualidade de vida."

Esse é um aspecto fundamental especialmente em escolas, onde o conforto e a concentração de alunos e professores fazem diferença no processo de aprendizagem. "O Steel Frame oferece conforto térmico e acústico, aspectos fundamentais para o bem-estar", reforça Scheffer.

 

Mas e no bolso, vale a pena?

Se os ganhos ambientais e de prazo são evidentes, resta a pergunta que todo construtor faz: quanto custa? A resposta não é simples e depende de vários fatores. "O preço sempre vai variar de acordo com o projeto arquitetônico. Porém entendemos que o sistema fica mais viável a partir de 150m²", explica Scheffer. "Se comparar um orçamento inicial dos dois métodos construtivos, a obra de alvenaria ficaria mais barata, porém no final da obra percebe-se que fica praticamente o mesmo preço, isso sem considerar o tempo ganho da obra e suas vantagens de isolamento termoacústico."

Cardoso complementa: "Quando analisamos o custo total da obra e não apenas o valor isolado dos materiais, o Steel Frame se mostra um sistema muito eficiente. A construção a seco reduz significativamente desperdícios, retrabalhos, atrasos e imprevistos durante a execução. Isso se traduz em mais previsibilidade financeira e maior controle do custo final da obra."

Para o setor corporativo, a equação fica ainda mais favorável. "Em um cenário de crédito caro e margens mais pressionadas, reduzir prazo virou estratégia financeira. Com o Steel Frame, é possível encurtar o tempo de obra em até 60%, o que impacta diretamente o custo, risco e retorno do investimento", argumenta Cardoso.

A questão da acessibilidade para a classe média brasileira é central para entender o potencial de expansão do método. Segundo Scheffer, "o público que temos mais facilidade de viabilizar é de classe média e alta". A Espaço Smart oferece financiamento próprio de até 240 vezes para casas, além da possibilidade de financiamento pela Caixa Econômica Federal.

"Sobre a aceitação está cada vez melhor e não tratamos mais como uma barreira. Hoje já existem casas em todos os estados do Brasil e muito conteúdo que mostram que é um sistema melhor e viável", afirma o executivo.

Para a habitação popular, o cenário ainda é desafiador, mas promissor. "No contexto da habitação popular, a alvenaria ainda predomina principalmente por questões históricas: existe uma cadeia de fornecedores consolidada e uma mão de obra amplamente disponível", reconhece Cardoso. "No entanto, o Steel Frame é um sistema industrializado, e isso significa que, à medida que ganha escala, seus custos tendem a diminuir. Em mercados mais maduros, onde esse método já é amplamente utilizado, ele se mostra não apenas mais rápido, mas também mais barato e mais eficiente do que a construção tradicional."

Em relação aos programas públicos como o Minha Casa Minha Vida, ainda não existe no Brasil uma adoção ampla do Steel Frame como tecnologia, mas o diálogo com gestores públicos está avançando. "Há um diálogo crescente com gestores públicos, equipes técnicas e municípios que enxergam na construção a seco uma solução concreta para reduzir prazos, aumentar a qualidade das entregas e trazer mais eficiência aos programas habitacionais", relata Cardoso.

Apesar do crescimento acelerado, o Steel Frame ainda enfrenta barreiras significativas no país. A principal delas é cultural. "O brasileiro foi acostumado por décadas a associar a construção à alvenaria pesada, e toda mudança de método exige tempo, informação e experiência prática para gerar confiança", explica Cardoso.

Scheffer aponta outro obstáculo: "Como a construção civil é muito tradicional em nosso país, existe em alguns engenheiros mais antigos a resistência pela mudança."

A mão de obra qualificada é outro gargalo natural. "A construção a seco exige mais técnica, mais precisão e menos improviso", reconhece Cardoso. Para enfrentar esse desafio, as empresas têm investido pesado em capacitação. A Espaço Smart mantém 10 centros de treinamento que já qualificaram mais de 12 mil pessoas. A Innova Steel criou a Steel Pro, um centro de formação reconhecido focado em capacitar profissionais para a realidade da construção industrializada.

"Qualificação, nesse setor, não é um diferencial - é a base que sustenta crescimento com qualidade", pontua Cardoso.

Apesar dos desafios, a carência de mão de obra é parcialmente compensada pela própria natureza do método. "Por se tratar de uma construção industrializada é preciso de menos profissionais e por menos tempo em uma obra", observa Scheffer. "Em alguns casos, conseguimos reduzir em até 50% a dependência de mão de obra em campo", acrescenta Cardoso.

 

Olhando à frente

De olho nos próximos anos, o setor aposta na ampliação da escala, à medida que construtoras e consumidores se familiarizem com o método e que a cadeia produtiva ganhe mais fornecedores e mão de obra especializada.

"O Brasil possui uma base muito sólida na indústria siderúrgica, o que nos dá segurança para sustentar o crescimento do Steel Frame no médio e longo prazo", responde Cardoso. "Ainda utilizamos aço importado em algumas aplicações específicas, mas a produção nacional tem um papel central e cada vez mais relevante nessa cadeia."

Quando comparado a outros países, o Brasil ainda está no início da jornada da construção a seco. "Hoje, o Steel Frame representa cerca de 3% do mercado nacional, enquanto em países como os Estados Unidos esse índice ultrapassa 40%", revela Cardoso. "Isso mostra não só o quanto ainda temos para evoluir, mas principalmente o tamanho da oportunidade que existe."

Se considerarmos apenas o mercado de residências unifamiliares de médio e alto padrão, a porcentagem sobe para 3-4%, segundo dados da Espaço Smart. "Em países desenvolvidos como EUA, Japão, Chile e países da Europa é muito comum a construção industrializada. Alguns desses países utilizam mais o Wood framing que é muito parecido, porém, ao invés de utilizar aço, utiliza a estrutura de madeira", compara Scheffer.

 

Setores que lideram a demanda

Hoje, os principais clientes do Steel Frame no Brasil são claros. Segundo a Espaço Smart, os setores que mais puxam a demanda são: "Residencial unifamiliar médio e alto padrão (média de 250m²), obras comerciais, hotéis até 4 pavimentos, obras públicas (estados de MG e PR principalmente) e chalés para Airbnb."

Innova Steel reforça que seu foco principal está nas obras comerciais e corporativas. "É um segmento naturalmente mais aberto à inovação, porque valoriza atributos essenciais da construção a seco: prazo, padronização, previsibilidade e controle de custos", explica Cardoso. "Dentro desse universo, temos visto um avanço consistente em projetos ligados ao setor hoteleiro, como redes de hotéis, chalés e operações de short stay, incluindo modelos como Airbnb."

 

Construção a seco e crise climática

Em um Brasil que enfrenta eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes - das enchentes no Rio Grande do Sul às ondas de calor no Sudeste - a construção a seco se apresenta como parte da solução para um setor que precisa se adaptar à nova realidade climática.

"A crise climática já impacta diretamente a construção civil, afetando prazos, custos e a viabilidade das obras. Nesse cenário, a construção a seco não é a única resposta, mas é uma parte importante da solução", pondera Cardoso.

O executivo destaca que o desempenho das edificações é um diferencial crucial: "As soluções em Steel Frame oferecem desempenho térmico e acústico muito superior ao da alvenaria tradicional, o que impacta diretamente conforto, consumo de energia e qualidade de vida."

Questionados sobre qual mensagem dariam a gestores públicos, construtoras e brasileiros que querem construir, os executivos convergem em um ponto: o Steel Frame não veio para substituir, mas para complementar.

"A construção a seco não veio para tomar o espaço de ninguém. Ela veio para auxiliar, complementar e apoiar as etapas da obra que hoje a construção civil enfrenta com tantas dificuldades", resume Cardoso. "Para os gestores públicos e construtoras, essa tecnologia representa uma oportunidade de somar forças, trazer mais eficiência, previsibilidade e tecnologia para um setor que ainda sofre com desperdício, atrasos e improviso."

Para Scheffer, a mensagem é de transformação: "O maior potencial é o próprio crescimento orgânico do mercado que cada vez está mais conhecido e desejado pelos consumidores", diz.

E Cardoso encerra com um recado de confiança: "Para o brasileiro que quer construir a casa própria, a mensagem é de confiança. A construção a seco entrega benefícios reais, com mais controle, qualidade e desempenho. Quando unimos conhecimento, técnica e novas tecnologias, conseguimos ampliar ainda mais as possibilidades de obra no Brasil e, juntos, transformar a forma como o país constrói."

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