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Aço para projetos de retrofit

19/12/2019 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

Para Nelson Dupré, arquiteto desde 1973 e professor de Projetos na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo (SP), obras de retrofit devem ter como princípio a demonstração evidente das intervenções realizadas, de maneira que as características originais do edifício não se confundam com os novos materiais empregados em sua recuperação. À frente do escritório que leva seu nome, foi o responsável pelo premiado projeto da Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, instalada onde havia sido a antiga Estação Ferroviária Júlio Prestes. Dupré é autor, também, de outras importantes obras de retrofit, como a da sede da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa (Amazul), recentemente concluída, em São Paulo, e a da Cinemateca Brasileira, onde nos concedeu a entrevista a seguir, em que fala do seu trabalho e da sua visão sobre a construção em aço.

Arquitetura&Aço – Em seus projetos de retrofit, como se dá a decisão pelo uso do aço?

Nelson Dupré – A escola de restauro em que acredito preconiza que toda intervenção seja clara no processo de restauração, para garantir que, visualmente, tudo aquilo que for incorporado à construção original possa ser bem identificado. Assim, há diálogo entre os materiais e podemos mostrar a intenção, as características do prédio restaurado e da nova intervenção. Quando se trata de um prédio executado em concreto, por exemplo, trabalho com aço. Além disso, geralmente é mais fácil trabalhar com aço porque ele permite que façamos montagens com mais simplicidade.

AA – Considerando as propriedades físicas do aço, quais são as principais vantagens do seu uso em retrofit?

ND – Qualquer intervenção que possa destruir, de alguma maneira, elementos originais da obra, eu procuro evitar. Por isso, preciso
trabalhar com materiais que ofereçam flexibilidade e sejam bastante adaptáveis em diferentes situações. Esse tipo de facilidade me convida a usar o aço. Além disso, com o aço conseguimos soluções mais leves, não só fisicamente como visualmente.

AA – Pensando em outros tipos de projeto, que benefícios o senhor associa à opção por soluções com estruturas em aço?

ND – Os principais benefícios que enxergo no uso do aço na arquitetura estão em sua sustentabilidade e capacidade de reciclagem. Ele também propicia limpeza na construção. Outro aspecto importante é a esbeltez, a leveza do material, que possibilita lidar com os elementos de maneira dimensional com muito mais liberdade. O aço é muito maleável e permite que nós tenhamos uma certa fantasia em relação às soluções que podemos adotar.

Acima, prédio da Amazul, que recebeu envelopamento em aço patinável e um novo mezanino em aço em retrofit recentemente concluído. Na obra da Sala São Paulo, na página ao lado, importante obra de retrofit conduzida por Nelson Dupré, o aço teve um papel central, presente na estrutura do forro móvel, nos balcões, no mezanino, acessos e na cobertura

AA – Como aparece o aço em seu projeto de retrofit para a Amazul, recentemente concluído?

ND – A Amazul tinha um edifício pré-fabricado. O reforço estrutural e mezanino foram integralmente executados em aço. Além disso, o prédio inteiro é envelopado em aço patinável, com proteções solares, em alguns lugares, em tela de tecido em aço inox.

AA – Quais foram os maiores desafios do projeto? Como o aço contribuiu para vencê-los?

ND – As questões determinantes eram o custo e um prazo de execução muito curto. Tínhamos limitação de altura no prédio existente. Nas lajes e pisos novos de mezanino, só poderíamos trabalhar com uma estrutura metálica delgada, de forma que sobrasse um pé-direito adequado. Todos os forros foram executados em colmeia de aço galvanizado para permitir que na parte superior estejam as instalações e elas sejam acessíveis através da própria grade. Precisávamos garantir que o prédio tivesse custos de operação e manutenção reduzidos.

AA – No projeto da Sala São Paulo, o aço também foi utilizado?

ND – Sim. A construção do mezanino e acessos, por exemplo, se dá com estrutura em aço e piso de madeira. No interior, o aço suporta os balcões que adentram a sala. Na parte superior, a estrutura que suporta a movimentação do forro é formada por treliças metálicas grandes, apoiadas nas colunas internas da sala. Os painéis do forro móvel são em aço revestidos em madeira e o piso técnico é em steel deck. A cobertura também é metálica, com fechamento parcialmente em aço.

AA – Considerando sua experiência na área acadêmica, o senhor avalia que os temas relacionados aos sistemas construtivos em aço já estão adequadamente inseridos na grade curricular dos cursos de arquitetura?

ND – Na universidade em que leciono, a Mackenzie, temos preocupação muito grande de não carimbar a arquitetura com o concreto aparente. E diversificamos bastante o uso de materiais. Procuramos trabalhar com estrutura metálica, estrutura de madeira e vidro, mostrando como esses materiais são bastante adequados ao uso, dependendo do tipo de construção.

AA – Há disciplinas voltadas especificamente à construção em aço?

ND – Na disciplina de Materiais e Técnicas, normalmente escolhemos em cada semestre um tipo de material – e um deles é o aço. Ao mesmo tempo, utilizamos esses materiais na cadeira de Projetos, de modo que todos os projetos do semestre devem utilizar o material selecionado em Materiais e Técnicas. Não há disciplina específica de retrofit, mas também cuidamos do assunto. Levo grupos para fazer visitas a obras realizadas e que tenham linguagem diferente daquela com que estão lidando na escola.

AA – Ao longo da sua carreira, o senhor notou mudanças na cultura da construção brasileira? O senhor acredita que projetistas e construtores estão mais abertos ao uso do aço?

ND – Eu acho que estamos mudando de patamar. A construção no Brasil se fez com concreto, basicamente, porque se julgava mais fácil trabalhar com ele e a mão de obra disponível não tinha muita qualificação. Hoje, esse quadro começa a se alterar. Conseguimos trabalhar com o aço de forma mais intensa e seu uso decorre muito mais de uma opção construtiva e não limitada por variáveis de
custo. (E.C.L.)

 

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