Atenção

Fechar

CBCA

A importância do aço na estação gelada

30/06/2020 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço
Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF)

Foto: Marinha do Brasil

A Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) foi criada em 6 de fevereiro de 1984 e está localizada na Península Keller, no interior da Baia do Almirantado, Ilha Rei George.

Em um horrível acidente, ela foi varrida pelas chamas e oito anos depois do incêndio que destruiu 70% das suas instalações, a base brasileira foi inteiramente reconstruída e reabriu suas portas para cientistas e pesquisadores no continente gelado – os brasileiros estão há mais de três décadas desenvolvendo pesquisas na região através do Programa Antártico. 

O plano de reconstrução da estação é todo nacional e para enfrentar as condições adversas do lugar foram usadas 700 toneladas de aço.
“Podemos considerar que sistemas pré fabricados em aço e madeira são os mais viáveis em território antártico”, afirmou Emerson Vidigal, arquiteto do Estúdio 41 Arquitetura, que foi o autor do projeto de reconstrução. “Por uma série de fatores como a logística, a facilidade de montagem por componentes em canteiros de locais diferentes, a necessidade de pré montagem para teste, o transporte naval necessário... Além disso, o aço tem normas internacionais que permitem fabricar com bastante semelhança em qualquer lugar do mundo e nesse caso foi na China”.

A preferência por aço, ainda de acordo com Vidigal, tem relação também com a questão psicológica da resistência ao fogo, um dos traumas provocados pelo incêndio do edifício original.

As estruturas principais são de aço de alta resistência à corrosão e ao clima frio, tratadas de maneira a minimizar a necessidade de manutenção. A armação em aço de suporte aos pisos é composta de treliças posicionadas em grelha e está modulada em painéis de 600x1200cm, que foram pré-fabricadas antes de transportadas ao sítio de implantação.

“O aço foi utilizado na superestrutura, nos painéis de revestimento externos e internos, nos forros, enfim, em vários sistemas da Estação Ferraz”, contou o arquiteto. “A facilidade de compor módulos baseados nas dimensões de transporte marítimo é uma premissa importante e com aço a gente consegue peças de dimensões reduzidas, especialmente quando usamos sistemas treliçados, como é o caso da EACF”.
Construir na Antártica é sempre um grande desafio de engenharia. As distâncias envolvidas demandam uma complexa cadeia logística; as condições climáticas rigorosas (ventos que superam 200km/h, temperaturas baixíssimas, solos congelados, sismos...); e as restrições ambientais, entre outros fatores, interferem de forma direta desde a fase de projeto, onde são estudadas as melhores soluções de obra, até o planejamento detalhado da execução.

“É um processo complexo, que envolve várias etapas de industrialização, pré montagem, desmontagem, embalagem, transporte marítimo e, por fim, todas essas etapas são praticamente repetidas lá na Antártica”, disse Emerson Vidigal. “Também tivemos que pensar em peças com dimensões e pesos propícios à montagem com gruas de capacidade de carga limitadas, que também são levadas ao local de navio. 

Dadas as dificuldades logísticas, o espaço reduzido para o canteiro e a pouca disponibilidade de tempo para a execução das obras (limitada aos verões), a utilização de módulos pré-fabricados foi enxergada como uma alternativa de montagem mais fácil e mais rápida.

Dessa forma, os módulos foram produzidos fora do continente antártico e transportados para o local da construção com a maior parte dos serviços já executados, minimizando o tempo de montagem e a necessidade de mão de obra na região. Foram utilizados contêineres de 20 pés e high cube para a montagem dos módulos internos, o que facilitou tanto o transporte quanto a sua movimentação na obra. Além disso, a estrutura da estação foi produzida em dimensões que facilitassem as movimentações nas diversas fases de transporte e a montagem no local.

Os 250 operários e engenheiros que trabalharam nas obras, utilizaram maquinários especiais para escavar a neve a 80 metros de profundidade, até encontrar terreno rochoso para fixar as fundações. As perfurações foram preenchidas com Concreto de Ultra Alto Desempenho de 500 MPa de resistência e vida útil de projeto de 200 anos.

Por causa dos fortes ventos que atingem a região onde está localizada a Comandante Ferraz, que podem ultrapassar os 200 km/h, e também por causa do risco de abalos sísmicos, a estação está encravada nas fundações através de palafitas de aço especial, também projetadas para suportar baixíssimas temperaturas e fortes ventos.

Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF)

Foto: Marinha do Brasil

Mas tudo saiu como o previsto. O prédio principal da nova estação brasileira é dividido em três grandes blocos, o Leste, Oeste e Técnico. Neles, se encontram a maior parte dos laboratórios, os dormitórios e os serviços básicos da estação, divididos desta forma:
• Bloco Leste: destinado às pesquisas, convívio e serviços da EACF. Nele, estão 14 laboratórios, refeitórios, cozinha, setor de saúde, sala de secagem e oficinas;
• Bloco Oeste: setor privativo e de convívio dos hóspedes da estação, onde estão instalados os 32 camarotes, uma biblioteca, uma academia e sala de vídeo/auditório. Em seus níveis inferiores, encontram-se os paióis de mantimentos e os tanques de água potável e para combate a incêndio;
• Bloco Técnico: responsável por todo o controle e demanda da rede elétrica, sanitária e automação da estação, além de possuir espaço destinado à garagem de viaturas. É composto, entre outros, por estação de tratamento de água e esgoto, praça de máquinas, geradores, sistema de aquecimento de água, setor de tratamento e incinerador de lixo e paióis diversos.

O projeto também levou em conta a sustentabilidade. A construção teve como objetivo reduzir a agressão ao meio ambiente, 30% da energia consumida nos laboratórios da estação vem de fontes renováveis, produzidas por placas solares e uma mini usina eólica instalada no local.

O calor que os geradores de energia emitem, em vez de ser lançado para o ar, é canalizado para aquecer a usina. Os cuidados com a sustentabilidade também envolvem os resíduos: todo o lixo produzido na base será enviado para o Brasil para ser reciclado.

“Essa nova base vai nos dar condições de trabalho e um salto qualitativo nas pesquisas científicas”, disse Paulo Câmara, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha na estação, através de um comunicado da Universidade. “A qualidade dos novos laboratórios não se compara com o que tínhamos até então. Estamos equipados com tecnologia de ponta”, garantiu.

O investimento para reconstruir a Comandante Ferraz, em 540 dias, superou os R$ 370 milhões, dos quais mais de R$ 150 milhões foram gastos apenas com a logística para transportar os materiais de construção para o polo sul.

Ficha Técnica:

> Projeto Arquitetônico: ESTÚDIO 41 Arquitetura.

> Arquitetos: Emerson Vidigal, Eron Costin, Fabio Henrique Faria e João Gabriel Moura Rosa Cordeiro.

> Localização: Península Keller.

> Área Construída: 3200.0 m².

> Ano do projeto: 2013.

Veja a matéria na íntegra na nova edição da revista Arquitetura & Aço.

Todas as Notícias

Confira também

Não é cadastrado?

Faça agora seu cadastro no site do CBCA e tenha acesso a conteúdos exclusivos e inscrições online. O cadastro no site do CBCA é gratuito, simples e rápido.

QUERO ME CADASTRAR

INDIQUE

Obrigado!
Sua indicação de conteúdo foi enviada com sucesso.