Fábrica de Cultura de Iguapé | H+F Arquitetos

27/08/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

Fábrica de Cultura de Iguape nasce de uma operação delicada: transformar uma antiga Cadeia Velha do século XIX em equipamento público contemporâneo, sem apagar a espessura histórica do edifício nem reduzir o novo anexo a uma presença secundária. O projeto do H+F Arquitetos, assinado por Eduardo Ferroni e Pablo Hereñú, combina restauro, construção industrializada e programa cultural em um ponto sensível do Centro Histórico do município, no litoral sul de São Paulo.

Erguida em alvenaria de pedra, cal e tijolos, a antiga Cadeia marca uma esquina importante junto ao Largo do Rosário e ao eixo da Rua Papa João XXIII. Sua massa organiza a quadra. Seu volume de dois pavimentos aparece como exceção em um tecido urbano baixo, alinhado às divisas e comprimido pela escala estreita da Rua XV de Novembro.

Ao lado dessa presença pesada, o novo anexo precisava surgir com outro corpo. A Fábrica de Cultura exigia acolhimento, apoio técnico e salas para Circo-escola, Dança, Música e Laboratório-Maker. Mais que acrescentar área, a intervenção introduziu outro tempo construtivo junto a um bem tombado: estrutura metálica, pisos em Painel Wall, drywall, chapas trapezoidais, caixilhos de alumínio, cobogós cerâmicos e cobertura tradicional reinterpretada pela precisão do aço.

Pablo Hereñú explica que a escolha do sistema partiu de uma demanda objetiva: prazo. Havia, no início, a necessidade de uma obra rápida. A resposta veio pela pré-fabricação e pela construção industrializada. “Esse contexto nos levou a utilizar um sistema construtivo que partisse de pré-fabricação, da estrutura em aço”, afirma o arquiteto. A lógica percorre todo o anexo: estrutura metálica, pisos em painel wall, fechamentos em drywall, caixilhos de alumínio, brises e chapas trapezoidais.

A velocidade, porém, conta apenas metade da história. A outra metade pertence ao patrimônio. Hereñú queria uma construção discreta na paisagem urbana, mas contrastante na aproximação. Ao lado da massa antiga, feita de alvenarias espessas e matéria mineral, o anexo deveria apresentar leveza, precisão e contemporaneidade. “Desejávamos que a sua materialidade vista de perto fosse contrastante com a materialidade das pré-existências históricas”, resume.

Essa informação orienta a obra inteira. A Fábrica de Cultura trabalha em duas escalas. Na leitura distante, aproxima-se dos tons cerâmicos de Iguape. Na experiência próxima, revela aço, chapas, perfis, painéis industrializados e vedações leves. O projeto evita a fantasia de continuidade histórica. Prefere construir uma conversa clara entre tempos diferentes.

A implantação amplia essa conversa para a cidade. O equipamento se distribui em dois imóveis separados por cerca de 400 metros: a antiga Cadeia e o antigo Correio. Essa distância transforma o percurso urbano em parte do programa. Ruas, largos, calçadas e praças passam a integrar a experiência cultural. Para Hereñú, a decisão veio da própria dinâmica de Iguape. “A rua já fazia parte da vida cotidiana da cidade. Incorporá-la ao equipamento parecia coerente com essa realidade”.

O anexo da Cadeia assume essa lógica ao posicionar os espaços de apresentação nas bordas do lote. A sala multiuso voltada à música abre-se para a Rua XV de Novembro. Um grande portão permite a integração com a calçada; caixilhos acústicos de correr garantem vedação quando o uso exige controle sonoro. No Circo, a estratégia muda: um portão de enrolar em chapa microperfurada cria abertura ampla, ventilação e transparência, com exigência acústica mais simples. O edifício passa a funcionar como palco urbano.

A estrutura metálica sustenta essa operação com rigor. O anexo foi criado em pórticos parafusados de aço galvanizado a fogo, solução adequada à agressividade ambiental de Iguape, cidade litorânea sujeita à maresia. Pilares, vigas e contraventamentos receberam pintura intumescente para resistência ao fogo. O sistema combina aço ASTM A572 Grau 50 nos principais elementos estruturais e ASTM A36 em peças secundárias, chapas, perfis dobrados, chumbadores e barras. As ligações utilizam predominantemente parafusos estruturais ASTM A325.

A escolha dos pórticos parafusados trouxe precisão de montagem e controle sobre os encontros com a pré-existência. Em obras de restauro, a técnica também precisa ser diplomática. A estrutura nova toca o edifício antigo em pontos específicos, com margem reduzida para desvio. Hereñú lembra a pequena passarela que conecta o pavimento superior da Cadeia ao anexo. O encontro entre os dois corpos exigiu acerto milimétrico. “O ponto onde a nova estrutura toca a estrutura existente tinha que ser bastante controlado”, diz.

Os dados estruturais revelam uma obra de escala contida, mas de alto refinamento técnico. A superestrutura metálica soma aproximadamente 40,6 toneladas de aço, considerando os elementos principais. A malha estrutural alcança cerca de 26,80 metros de largura por 22,32 metros de profundidade. A modulação varia conforme as condições do edifício histórico e as exigências do programa, com vãos que chegam a 6,70 metros no sentido transversal e 6,18 metros no sentido longitudinal.

O térreo possui pé-direito bruto de 3,78 metros. O pavimento superior atinge aproximadamente 3,07 metros até o nível da cobertura. Esses números parecem discretos perto de grandes obras metálicas, mas ganham importância no contexto de Iguape. Cada centímetro interfere na volumetria da quadra, na relação com a Cadeia, no eixo visual da Rua XV de Novembro e na paisagem vista a partir da Igreja Matriz.

Junto à Rua XV de Novembro, o anexo recua no andar superior para preservar a leitura da quadra. Quem caminha desde a Igreja em direção à Cadeia só percebe a nova construção no momento da chegada. A solução estrutural acompanha essa discrição: o nível de cima termina um eixo antes, enquanto a base avança, marca o acesso e cria um pequeno alargamento do passeio. Um gesto simples resolve escala urbana, entrada e estrutura sem transformar a técnica em exibição.

Nas laterais voltadas aos vizinhos, o anexo evita empenas cegas. A solução combina estrutura metálica, caixilhos de alumínio e uma segunda pele cerâmica formada por cobogós. Esse plano externo filtra insolação, vento e visuais. A cerâmica aproxima o novo edifício dos tons dominantes do centro histórico, enquanto o aço mantém a lógica contemporânea da construção. De longe, o anexo participa da ambiência. De perto, mostra sua engrenagem.

Nas faces internas voltadas para a Cadeia, surgem chapas trapezoidais opacas e microperfuradas. Esses planos metálicos criam outra qualidade espacial: ora protegem, ora revelam, ora deixam a luz atravessar. O contraste com a alvenaria antiga ganha nitidez. A pedra e o tijolo concentram massa; a chapa desenha plano; o pórtico metálico regula distância.

A cobertura é o ponto mais sofisticado dessa mediação. O desenho adota uma lógica próxima aos sheds industriais, solução que Hereñú define como racional, inteligente e quase atemporal. Os sheds permitem iluminação e ventilação ao longo dos ambientes, reduzindo a dependência exclusiva das fachadas. Também associam o edifício ao universo produtivo sugerido pelo próprio nome do programa: uma fábrica de cultura.

A geometria industrial, porém, recebe uma pele cerâmica. O projeto adota telhas francesas de barro, com inclinação de 35% para favorecer o escoamento das águas pluviais. A opção preserva a leitura dos telhados de Iguape, visíveis a partir dos mirantes e incorporados à proteção da paisagem histórica. A decisão acrescenta peso ao sistema: as telhas chegam a quase 47 kg/m². Por isso, a estrutura de cobertura exigiu terças metálicas U 120 x 50 x 2 mm muito próximas, espaçadas a cada 320 milímetros. A tradição da telha depende da precisão do aço.

Essa combinação dá força ao programa. A cobertura se aproxima do horizonte cerâmico da cidade, mas sua lógica interna pertence à indústria. O resultado escapa da cópia dos telhados antigos e também evita o objeto isolado. A obra reconhece a paisagem e preserva sua autonomia técnica.

O Circo-escola concentra outro dado expressivo. Três vigas principais W360 x 32,9 foram dimensionadas para receber até 1.5 tonelada cada uma. A informação revela uma estrutura preparada para equipamentos cênicos, iluminação, cargas suspensas e usos variáveis. Em um equipamento cultural, esse tipo de previsão amplia a vida útil do espaço. A arquitetura deixa de responder apenas à inauguração e passa a considerar apropriações futuras.

O pavimento superior utiliza painel wall com espessura final de 55 milímetros, apoiado sobre a estrutura em aço. As placas têm dimensão padronizada de 1,20 metro por 2,50 metros. Em áreas específicas, o projeto prevê piso rebaixado em 65 milímetros para acomodar variações de acabamento ou usos técnicos. No térreo, a solução segue em concreto armado, com juntas de concretagem e armaduras em telas eletrossoldadas. A combinação entre laje úmida no nível inferior e sistema seco no superior reduz peso onde o aço mais se beneficia.

As vedações acompanham esse raciocínio. O drywall organiza as divisões internas e facilita alterações futuras. As chapas trapezoidais, perfuradas ou opacas, resolvem fechamentos com leveza. Os caixilhos de alumínio completam o sistema. Cada material participa de uma cadeia construtiva voltada à montagem rápida, à manutenção previsível e à adaptação do projeto.

A versatilidade foi essencial. Música, dança, circo e laboratório maker exigem diferentes cargas, pés-direitos, controles acústicos, iluminação e graus de abertura. A estrutura metálica permite alternar espaços amplos e salas mais contidas com peças esbeltas. “É um sistema muito versátil”, afirma Hereñú. Essa flexibilidade aparece tanto nos grandes vazios quanto na possibilidade de reconfiguração interna.

A logística reforça o valor do sistema. Como a cidade carecia de produção local próxima para os componentes industrializados, muitos elementos foram fabricados fora da região. Mesmo assim, o porte reduzido das peças e a montagem parafusada favoreceram transporte, içamento e execução em área urbana consolidada. O centro histórico pedia controle, baixo risco e respeito às construções vizinhas. O sistema em aço respondeu com previsibilidade.

A Fábrica de Cultura de Iguape foi reconhecida na 27ª Premiação IABsp (Instituto de Arquitetos do Brasil — Departamento de São Paulo) 2025, na categoria Restauro, Retrofit e Intervenções em pré-existências. O mérito está na precisão da resposta. O projeto evita o gesto espetacular e constrói sua força na articulação entre sistemas: aço galvanizado, pintura intumescente, painel wall, drywall, chapas trapezoidais, cobogós cerâmicos e telhas francesas. Cada componente cumpre uma função técnica sem romper a leitura do conjunto. Patrimônio e construção contemporânea aparecem lado a lado, com suas naturezas preservadas.

Hereñú resume a contribuição do sistema construtivo em aço pela soma de qualidades: precisão, reversibilidade, rapidez de montagem, diálogo por contraste e flexibilidade de uso. Para ele, o anexo precisava pertencer claramente a outro tempo. “O novo edifício deveria ser associado ao momento histórico em que estamos vivendo”, afirma. A declaração ajusta o tom da intervenção: a Cadeia conserva a densidade do século XIX; o anexo responde com uma construção leve, precisa e aberta à vida pública.

 

FICHA TÉCNICA - FÁBRICA DE CULTURA
 
>  Projeto Arquitetônico/Arquitetos Responsáveis:
BH+F Arquitetos/ Eduardo Ferroni e Pablo Hereñú

> Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço: Steng Projetos Estruturais

> Execução da Obra: Sarasá

> Área Construída: 976,80m²

> Empresa Responsável pela Montagem da Estrutura em Aço: TR Soluções Metálicas e Engenharia

> Volume de Aço Empregado: 41 toneladas

> Conclusão da Obra: 2025

> Local: Iguape, SP

 

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