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Na praça, a orquestra, o rádio e a TV

23/02/2017 | Notícia | Revista Projeto - Edição 434 – Setembro/Outubro 2016

CRIAÇÃO DOS ARQUITETOS JÔ VASCONCELLOS E RAFAEL YANNI - COMO REFLEXO DO PROGRAMA EQUACIONADO A PARTIR DA CONSULTORIA DE JOSÉ AUGUSTO NEPOMUCENO. ARTÍFICE DA SALA MINAS GERAIS - A ARQUITETURA DO CENTRO CULTURAL PRESIDENTE ITAMAR FRANCO. EM BELO HORIZONTE. MG. TEM VÁRIOS ATRIBUTOS. O PRINCIPAL. É O DE CONSTITUIR UM SENTIDO DE URBANIDADE• SINTETIZADA NA ACOLHEDORA PRAÇA QUE ARTICULA AS ÁREAS CONSTRUÍDAS - EM UMA QUADRA DA CAPITAL DESTITUÍDA DE ESPAÇOS PÚBLICOS DE QUALIDADE.

“Lateral do complexo voltada para a rua Gonçalves Dias. Edifício será ocupado pela TV Minas e Rádio Inconfidência”.

“Face principal da sala de apresentações da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. A entrada do público se dá pela rua Tenente Brito Melo, que tem menor volume de tráfego de veículos”.

“Cobertura em forma de pérgola interliga os dois novos edifícios que fazem parte do Centro Cultural Presidente ltamar Franco, complexo localizado no Barro Preto, em Belo Horizonte”.

Habituado a se integrar às equipes apenas depois do projeto de arquitetura estar definido, José Augusto Nepomuceno, arquiteto e um dos principais consultores em acústica do país, pensou tratar-se de mais uma dessas situações corriqueiras e, inicialmente, não botou muita fé no conteúdo da mensagem enviada pelo maestro Fábio Mechetti, diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Na Europa e nos Estados Unidos, justifica Nepomuceno, seria natural um maestro convocar em primeiro lugar um consultor em acústica para configuração de uma sala de concertos. "No Brasil, porém, não dava para acreditar", justifica.

Condutor da jovem orquestra, Mechetti relatava a Nepomuceno que conhecia seu trabalho - citou como exemplo a Sala São Paulo, na estação Júlio Prestes -, quando comunicou que desejava projetar a sala de concertos para a filarmônica que lidera, afirmando, ainda, sua intenção de que o espaço fosse desenhado por ele. O maestro convidava o consultor para discutir a incumbência sem ter sequer um esboço da arquitetura, postura que, na avaliação de Nepomuceno, é a correta no caso de salas de concerto, apresentações e teatros. A rigor, não havia nem terreno para a futura sede da instituição.

“Distribuição dos prédios no terreno e vazio entre eles permitiram criar a praça de acolhimento, suprindo carência da região por espaço público de qualidade”.

Movido pelo inusitado da proposta e obrigação profissional, Nepomuceno retomou a mensagem no dia seguinte - ele estava a trabalho em Munique, na Alemanha, recorda. Esse, pode-se dizer, foi o acorde inicial da partitura que culminou com a inauguração, no início de 2015, da Sala Minas Gerais (naquele momento inacabada), uma das edificações do Centro Cultural Presidente ltamar Franco, atual denominação do complexo (Estação Cultural Presidente ltamar Franco, o simpático nome anterior, foi abandonado por tolas idiossincrasias). Alinhavados o programa com as necessidades técnicas e artísticas da orquestra - sala principal, capacidade da plateia, camarins, salas de ensaios, administração, espaços de apoio, estacionamentos, entre outras, começou a se estudar alternativas de terrenos para a futura construção. Foi nesse momento que os arquitetos Jô Vasconcellos e Rafael Yanni se engajaram na iniciativa - na época, ambos trabalhavam para o Governo do Estado, ela responsável pela implantação e coordenação dos projetos do Circuito Cultural Praça da Liberdade; ele numa função estratégica. Caberia aos dois dar configuração arquitetônica à sala conceituada por Nepomuceno. Antes, porém, da arquitetura, eles deveriam "descobrir" quais terrenos seriam capazes de acomodar o equipamento.

“Escada/arquibancada transpõe o desnível existente entre as ruas Uberaba, na cota mais baixa, e Tenente Brito Melo”.

“Os acessos para as instalações das empresas de comunicação e a sala de concertos são independentes, porém convergem na praça de acolhimento”

Quando se fechou com o lote do Barro Preto - bairro da região centro-sul daquela capital-, o então governador do Estado, Antonio Anastasia, sugeriu que ao projeto da sala de concertos fosse agregado o das sedes e estúdios da Rede Minas de Televisão e Rádio Inconfidência. Doado pelo governo ao Tribunal de justiça para que ali fosse construída a sua nova sede, o terreno - onde existia uma edificação parcialmente tombada - abrigou por anos repartições vinculadas à fiscalização de trânsito de Belo Horizonte. Com a desistência do TJ, o imóvel foi retomado e destinado aos novos edifícios. Jô e Yanni os conceberam com a intenção de que o conjunto se tomasse um novo polo cultural e turístico da capital. A proposta era de que o complexo contribuísse para a transformação do espaço urbano circundante e resgatasse a desejável área de socialização que um dia a região já teve - essa qualidade, lembram eles, fora perdida com a extinção/demolição do Mercado Distrital da Barroca. O terreno vizinho onde existiu o comércio (projeto de Celso Eustáquio de Oliveira, José Eduardo Ferolla e Sérgio de Paulo) é atualmente ocupado por uma unidade do Hospital Mater Dei (Zanettini Arquitetura). As edificações foram implantadas no melhor nível de acesso do terreno, de maneira a reduzir a movimentação de terra. A disposição procurou gerar vazios entre elas, condição que propiciou a criação de uma grandiosa praça de acolhimento e lazer. "Que é oferecida para toda a comunidade e usuários em um local carente de espaços públicos, trazendo para a região uma nova identidade", afirmam os arquitetos, destacando que o conjunto resgata e confirma o caráter e o compromisso social que, em sua avaliação, um equipamento desse porte deve contemplar. Ainda de acordo com a explicação de Jô e Yanni, a sede da orquestra e as instalações da TV/Rádio refletem uma organização espacial pré-estabelecida, sendo espelho do programa.

“Brises amenizam a insolação na face posterior da sala de concertos. Os espaços de apoio e da administração estão nesse setor do prédio”.

“Foyer da sala de concertos. Chapas perfuradas pintadas em vermelho camuflam a casa de máquinas e ar-condicionado. Nas chapas, estão estampados os desenhos/grafites que retratam espécies de pássaros de Minas Gerais”.

A estrutura é totalmente modulada para otimizar custos e acelerar prazos. "Foram os critérios acústicos que determinam as formas dos espaços sensíveis e a organização dos ambientes circundantes", eles ressaltam. "As necessidades acústicas de isolamento estrutural determinaram a implantação preferencial da grande sala de concertos sobre terreno natural, sem subsolos, e afastada das outras estruturas. Ela é implantada de forma a receber em seu nível médio o público que chega pela praça e faz circularem músicos e instrumentos diretamente no nível do palco. Os grandes estúdios da TV também são implantados sobre terreno natural com acesso de docas e equipamentos diretamente na cota original", eles descrevem. A zona multifuncional é formada por estacionamento, pré-foyer e serviços, sendo articulada pelas circulações horizontais e verticais. "O pré-foyer e entradas servem como áreas de transição entre o interior e exterior, tão necessárias às regiões de clima tropical", eles observam. O público que chega a pé desembarca no ponto mais alto do terreno, onde o trânsito é menos intenso - estacionamentos foram dimensionados para a demanda das três instituições. Entradas e saídas de carros se dão em ruas distintas, na cota natural e no fluxo das ruas do quarteirão, sem cruzamento com o público. O edifício tombado foi recuperado, sendo destinado à praça de alimentação que atenderá o público das três instituições e de equipamentos próximos, com restaurante, café e lanchonete. Para os espetáculos, banheiros generosos e cafés em todos os níveis atendem a rápida demanda dos intervalos, e o café/terraço/jardim serve também de apoio e descanso para os músicos em dias de rotina. "Atualmente, com a obra entregue à comunidade, notamos que a população apropriou-se do espaço, criando um lugar de encontro prazeroso e referencial para a cidade", asseguram os autores. (A. M.)

“Lateral da Sala Minas Gerais voltada para a Alvarenga Peixoto. A pedra empregada no revestimento da edificação existe em abundância naquele Estado”

“Interior da sala de concertos. A acústica da Sala Minas Gerais, com projeto de José Augusto Nepomuceno, autor também do projeto da Sala São Paulo, na estação Julio Prestes, foi elogiada por praticamente todos os artistas que lá já se apresentaram.

JÔ VASCONCELLOS & ARQUITETOS ASSOCIADOS

Jô Vasconcellos (EAU/UFMG, 1971) é titular do escritório Jô Vasconcellos & Arquitetos Associados. Foi responsável pela implantação e coordenação dos projetos do Circuito Cultural da Liberdade, em Belo Horizonte. Rafael Yanni (EAU/UFMG, 1997), trabalhou no escritório técnico de arquitetura da UFMG e no Núcleo de Entregas e de Empreendedores Públicos do Escritório de Prioridades Estratégicas do Governo de Minas Gerais. Jose Augusto Nepomuceno (Faculdade de Belas Artes, 2007) é especialista em acústica e planejamento teatral. É titular do escritório Acústica & Sônica.

FICHA TÉCNICA : CENTRO CULTURAL PRESIDENTE ITAMAR FRANCO

DATA DO INÍCIO DO PROJETO: 2011
DATA DA CONCLUSÃO DA OBRA: 2015
ÁREA DO TERRENO: 14.400 m²
ÁREAS CONSTRUÍDA: Orquestra (11.162 m²); TV (4.240 m²); Rádio (1.639m²); Estacionamento (14.067 m²); Casa Histórica (1.420 m²); Praças (7.000 m²)
COORDENAÇÃO GERAL E REALIZAÇÃO: Codemig
ARQUITETURA: Jô Vasconcellos e Rafael Yanni (projeto e coordenação técnica geral); Escritório de Prioridades Estratégicas do Governo do Estado de Minas Gerais; Joana Magalhães (assistente de arquitetura)
CONSULTORIA TÉCNICA. PROGRAMA E ARQUITETURA ACÚSTICA: Acústica & Sônica - José Augusto Nepomuceno
COORDENAÇÃO GERAL DOS PROJETOS E ACOMPANHAMENTO: Jô Vasconcellos
PROJETOS EXECUTIVOS E COMPLEMENTARES: SPM
PROJETOS EXECUTIVOS DE ARQUITETURA: Fernando Brentano
ESTRUTURA: Charles Simon
LUMINOTÉCNICA: Sônia Mendes
COMUNICAÇÃO VISUAL: Greco Design
PAISAGISMO: Jô Vasconcellos, Rafael Yanni e SPM
GRAFITE: Brin Cortes
FISCALIZAÇÃO: Concremat
CONSTRUÇÃO: OAS
FOTOS: Jomar Bragança
FORNECEDORES: Geomec, Geofix (fundações); Techneaço, Tecnoman, Femec, Mecbrun (estrutura metálica); jam (climatização); Philips, Iluminar, Erco, Everlight, Itaim (luminárias); Tarkett Stone, Taralay (pisos), Cox Port (pisos, forros, portas e revestimentos acústicos); Secmet (portas metálicas acústicas); Resicon (drywall, forros); BM Consutoria, Desare (fachadas e esquadrias de vidros); Revestform (instalação de pisos); Owa (painéis de madeira); lsofibras (painéis acústicos); Hunter Douglas (brises).

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