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Geometria do Renascimento

06/06/2012 | Notícia | Revista AU - Arquitetura & Urbanismo - 06 de maio de 2012


A força do trabalho também reur­baniza. A reinvenção da cidade de São Paulo passou pela Barra Funda, bairro de velhos galpões industriais e edifícios deteriorados de meados do século passado, sob a foice e o martelo do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da informação (Sindpd). O retoque laboral transformou um ponto comercial de arquitetura simples e apagada em ícone para o futuro do espaço urbano paulista.

Quem articulou esta revolução foram os arquitetos Francisco Spadoni e Lauresto Couto Esher. "Descascamos o prédio dos anos de 1950 deixando expostos os elementos estruturais de concreto armado; a recuperação foi total", descrevem.

A recente configuração mostra, ao nível da rua, concreto aparente com a sigla do sindicato em relevo. Nos pavimentos superiores, vidros e brises metálicos dispostos horizontalmente comunicam o alcance longilíneo da nova arquitetura, acompanhando a importância da atuação politica do sindicato.

Se antes a fachada era um elemento curvo que acompanhava a esquina, a atual direção das linhas horizontais forma um canto reto, no ponto de encontro entre a Avenida Angélica e a Rua Barra Funda. "Era importante trazer esse sindicato, de forte atuação no cenário nacional, para um dos focos de revitalização da cidade", justifica Francisco. "A Barra Funda central, tem um histórico industrial — o terreno esta próximo da linha férrea — e se enquadra no contexto de revelado da nova São Paulo."

Seu protagonismo é explicado pelo fato de fazer frente para três ruas ao mesmo tempo, em terreno de forma­to trapezoidal. "A entrada principal pela Angélica, enquanto os fundos tem vista para uma praça; o desenho do prédio acompanha o do lote."

Em sua velha geometria, o edifício tinha andar térreo e outros dois pavimentos, cobertos por telhas de amianto sobre tesoura. A reestruturação adicionou terraço aberto sobre o segundo andar, abrindo um pavilhão de eventos com churrasqueira.

No térreo estão funções mais públicas: de atendimento a associados, serviços sociais, turismo e recepções, a copa e área restrita para funcionários. Há ainda um auditório fechado com parede curva que limita, para o lado de fora do ambiente de convenções, uma galeria de exposição, privilegiada pela luz natural que entra por claraboia no átrio de circulação vertical. O átrio, por sua vez, é formado por um vazio a partir de recortes nas lajes, interligando os três andares Além da entrada para o auditório por dentro do hall de recepção, também e possível acessá-lo diretamente por fora — detalhe importante nos dias em que e locado por outras agremiações, e fora do horário de expediente.

O segundo auditório, oval e menor, fica no primeiro andar, um piso de transição. Seu formato é o de uma elipse lançada na diagonal. "Se abertas suas duas portas, transforma-se em um grande corredor", afirma Francisco.

O segundo andar ficou reservado aos escritórios da diretoria. Térreo e área de escritórios receberam pisos vinificos e forros metálicos perfurados. Os auditórios tem carpete e, nas paredes, painéis de madeira frejó. As estruturas foram reforçadas para receber o novo pavimento de cobertura o que implicou a alteração da relação de cargas sobre as fundações. Apesar da pouca altura do pé-direito no subsolo, blocos de fundação puderam set ampliados, novas estacas perfuradas e os diâmetros de colunas, aumentados. "Somente as vigas permaneceram exatamente como estavam", explica Francisco.

Todo o trabalho de reforço estrutural se deu do subsolo até o primeiro andar. "O estado das ferragens à mostra era tão critico a partir do terceiro pavimento que o engenheiro calculista achou por bem substituí-las naquela altura, com novas colunas de concreto armado."

Já o pavilhão de eventos e a estrutura da cobertura, além da escada atirantada, foram pensados para perfis metálicos. Apesar dos reforços, a modulação das colunas foi mantida em sua lógica original.

Na fachada, os brises são de alumínio, material que garante a leveza para a estrutura existente, e ainda acompanha o ritmo da modulação dos caixilhos — que, alias, foram trocados por esquadrias de alumínio com vidros temperados laminados de 8 mm e vedação acústica. "O material de revestimento da fachada, no nível térreo, foi o GRC, pré-moldados à base de cimento reforçado com fibras de vidro, texturados (aspecto de con­creto aparente) e leves, de 2,5 mm de espessura", especifica Tiago Andrade, arquiteto e coordenador de obras do Spadoni AA. O restante das alvenarias foi revestido com pastilhas cerâmicas.

Já o átrio de circulação vertical foi transformado em grande ponto focal e irradiador de luz. A estrutura metálica do pavimento de cobertura vira uma claraboia, que banha de sol todos os andares. "A escada atiran­tada recebeu, em uma das paredes adjacentes, mosaico de pedras portu­guesas, garantindo maior identidade ao edifício, ao exaltar a história da luta sindical", aponta Francisco Spadoni.

O mosaico de 18.500 pedras naturais recria um mural de Pablo Picasso de 1955, criado especial­mente para homenagear o décimo aniversário da Federação Sindical Mundial. Foice, martelo e mãos de trabalhadores se unem, formando uma flor. A obra, desaparecida de Praga desde a queda do regime comunista na ex-URSS em tig89, pode agora ser apreciada sob o sol da Barra Funda, bem no Centro de São Paulo.

Dados da obra
Data do projeto: 2007/2008
Data da execução: 2009
Area construída: 3.270 m²

Ficha técnica
Arquitetura: Spadoni AA
Autores: Francisco Spadoni e Lauresto Esher
Coordenador: Tiago Andrade
Equipe: Carolina Mina Fukumoto. Fablana Benine, Nerino Calo Junior, Sabrina Chibani, Regina Maria Valletta e Ricardo Canton
Estrutura: Statura Engenharia

Fornecedores
Estrutura metálica: Sentec
Brises e Caixilhos: Cosbiem

Reportagem:  Giovanny Gerolla
Fotos: Tiago Andrade

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