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Cabana da memória

18/05/2011 | Notícia | Revista AU - Arquitetura & Urbanismo - Maio 2011


Na UnB, Lelé projeta um memorial para seu amigo Darcy Ribeiro, com biblioteca e auditório. De forma circular, o espaço garante o conforto térmico e a engenhosidade característicos das obras de Lelé

Tanto pode lembrar um disco voador (o lado empreendedor de Darcy Ribeiro), quanto uma maloca indígena (o lado antropólogo) - assim Lelé define o Memorial erguido na UnB, um projeto que reflete a dicotomia entre o passado e o modo de ser de Darcy.

Foi o próprio Darcy Ribeiro quem incentivou Lelé a aprender como os índios construíam. Partindo do princípio de que a concepção estrutural de um prédio é fundamental, Lelé estudou a forma primitiva e intuitiva com que os índios Xinguanos construíam as suas cabanas, desenvolvendo uma tecnologia passada de geração em geração. "A cabana dos índios é uma coisa linda. Possui ventilação, até um shed como esses que utilizo em meus trabalhos. Tem uma cumeeira por onde sai o ar quente", explica Lelé. "No projeto da Fundação Darcy Ribeiro, a grande cobertura tem um sentido um pouco disso, pode-se interpretar tanto como uma nave espacial quanto como uma cabana indígena. Depende da sensibilidade de quem vê. Não que eu tenha pensado em fazer isso. O que queria resolver realmente era a questão de um espaço que todo mundo dominasse, exatamente como Darcy sempre foi: ele interagia com todo mundo. Nada como uma forma circular para criar esta unidade espacial", conclui.

Do primeiro desenho às propostas futuras, houve pequenas adaptações, logo no começo do projeto, Darcy Ribeiro pediu a criação de um beijódromo. "Um espaço ao ar livre, na grama, nos degraus - um espaço bem a gosto de Brasília, em que podia fazer seresta, as pessoas poderiam estar em volta se beijando, namorando. Para uso noturno, principalmente", explicou Darcy Ribeiro. Lelé, então, situa o beijódromo do lado oposto ao acesso principal, um anfiteatro ao ar livre distribuído na encosta de uma elevação ajardinada contornando parcialmente o lago.

Em 1997, Darcy Ribeiro faleceu e o projeto ficou engavetado. Em 2008, a Fundação Darcy Ribeiro contata novamente Lelé. O terreno escolhido por Darcy, localizado na Praça Maior da UnB, estava livre. Mas contingências financeiras postergaram mais uma vez o projeto. Em 2009, o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, apresenta o projeto à comunidade acadêmica da UnB e à sociedade, em uma audiência pública. O Poder Executivo, pelo Ministério da Cultura, assina um convênio de cooperação para a construção do espaço, investindo 8,5 milhões de reais na obra.

A terceira versão apresentada por Lelé traz modificações aos projetos anteriores. O beijódromo, que inicialmente seria descoberto, ganha uma cobertura em forma de concha em telha metálica pré-pintada branca para dar maior flexibilidade ao espaço.

A área total coberta é de 2-454,92 m², ao custo de aproximadamente 2 mil reais o m² - incluindo a área urbanizada de 3-235,94 m² com um lago de 1.028 m².

A escada retilínea, com guardacorpo de vidro, desloca-se para fora do círculo central, evitando a interferência sonora na biblioteca, situada no pavimento superior. Lelé contorna o problema do ruído excessivo com uma solução engenhosa: bloqueia a parte inferior com um círculo de vidro delimitando o jardim central, que prossegue até o pavimento superior, faceando a laje do primeiro piso e se transformando no guarda-corpo da biblioteca, a 1,10 m de altura. Evita, desta forma, a descontinuidade do espaço, integrado visualmente pelo jardim central. O elevador metálico, com fechamento de vidro, permanece na periferia do círculo central ajardinado.

No térreo, uma porta, diametricamente oposta à entrada principal, conduz o usuário ao beijódromo, que agora passa a ser um auditório com 200 lugares. Uma parede curva de argamassa armada funciona como um anteparo, resguardando o acesso ao bloco principal e servindo de fundo do palco elíptico elevado.

O edifício circular de dois pavimentos, com 32,20 m de diâmetro interno e 37 m de diâmetro de cobertura, tal uma tenda de circo (ou uma maloca, como preferia Darcy Ribeiro), lança-se para o alto em sua parte central, atingindo 14,80 m no topo da cúpula, que acolhe embaixo um espaço circular ajardinado, de 12 m de diâmetro e pé-direito duplo.

A cobertura é composta de telhas especiais dobradas de chapa pré -pintada de aço galvanizado branco, com proteção interna de bidim e forro obilongo metálico por baixo. Na parte correspondente à projeção do jardim interno, uma grande claraboia garante a luminosidade natural, e é formada por telhas de policarbonato transparente com 6 mm de espessura, que se sobrepõem uma às outras até o anel de compressão da cúpula, e sobre este uma veneziana metálica com cobertura também metálica. Na primeira versão do projeto, Lelé chegou a cogitar revestir todo este espaço central com fibra de vidro, única opção viável quando a produção de policarbonato ainda não havia se instalado no Brasil.

Enquanto isso, placas verticais metálicas fecham lateralmente o anfiteatro dos dois lados. Desejando manter o caráter informal que Darcy Ribeiro tanto queria e resolver o problema do escurecimento para projeção durante o dia, Lelé desenha grandes estruturas pivotantes retilíneas, que chegam quase ao teto. Largas de 1 m possuem altura variável de acordo com a cobertura, alcançando, a mais alta, 5,20 m. Estas placas, funcionando como brises, podem ser fechadas ou abertas, controlando a incidência da luz e proporcionando maior conforto sonoro.

Conforto ambiental

O espelho d'água forma um anel com diâmetro externo de 52 m em volta do edifício, e nebulizadores de água no lago são acionados nos períodos secos, criando uma espécie de névoa. Essas gotículas de água, por evaporação, resfriam o ar que penetra no ambiente.

O ar chega pelas janelas das salas que circundam o térreo e, na parte superior, por orifícios de 2 mm do beiral do anel circular externo, fechado por uma chapa de ferro perfurada. O ar fresco, penetrando pela periferia do prédio, circula por todo o ambiente antes de ser extraído por cima.

Engenhoso, Lelé constrói seu próprio exaustor, de rotação baixa e silencioso, com diâmetro aproximado de 2,5 m, acoplado na cúpula e dissimulado por uma rosácea em fita metálica - idéia já aplicada no auditório do Tribunal de Contas da União de Salvador (1995).

Lelé não desenhou um memorial, menos ainda uma fundação, biblioteca ou beijódromo. Desenhou o sonho do amigo Darcy Ribeiro, sua última morada, a casa que ficou lhe devendo desde os anos 1960, quando, desbravando a imensidão do cerrado, impressionava-se com o céu repleto de estrelas que se confundia com a linha do horizonte.

A estrutura

A estrutura da cobertura, composta de 32 vigas curvas radiais em perfil, "I" (com 40 cm de altura e banzos inferior e superior de 20 cm). apoia-se internamente no anel de compressão da cúpula, de 2.60 m de diâmetro, e, no outro extremo, está engastada na ponta do balanço externo do pórtico do piso superior, composto também de 32 vigas radiais em perfil "I" de alma cheia (com 45 cm de altura e banzos inferior e superior de 20 cm). Estas vigas, por sua vez, são engastadas em 32 pilaretes metálicos, dispostos na periferia da construção, e nas vigas transversinas que formam o anel circular interno. Distribuindo sua carga para 16 pilares metálicos tubulares, situados entre duas linhas de forças principais. Ao deslocar lateralmente os pilares internos, Lelé simplifica o esquema estrutural, reduzindo-os. Todos os pilares estão apoiados no solo.

O sistema, devido às cargas do vento, cria empuxos laterais, fazendo com que os pilares da periferia absorvam momentos. A laje de concreto do primeiro piso é integrada à estrutura de aço. O concreto, ao penetrar nas vigas transversinas, solidariza a laje de concreto com a estrutura metálica, eliminando a ferragem negativa. Desta forma, ela absorve os empuxos e participa do travamento de todo o sistema, dando o contraventamento necessário à estrutura. Ao nervurar a laje, Lelé diminui sua espessura, evitando também a necessidade de contrapiso.

A parede de alvenaria de concreto, que fecha internamente as salas do térreo, ajuda também no contraventamento estrutural, uma vez que o pórtico metálico possui balanços significativos dos dois lados - o balanço interno, próximo ao círculo central, é de 1.60 m, e o externo, na periferia que acolhe as vigas radiais da cobertura, de 2,70 m.

Uma cobertura em forma de concha metálica branca fecha o espaço do beijódromo. Com forro de chapa dobrada, apoia-se em dez vigas curvas de perfil "I". Trata-se de uma estrutura independente, apoiada diretamente na fundação, pelo lado externo, e em cinco pilares radiais tubulares, por onde desce a água pluvial, na parte interna.

Ficha técnica

Arquitetura: João Filgueiras Lima (Lelé)
Desenvolvimento da arquitetura: Vicente Munoz Dias e Annamaria Binazzi
Estrutura: Paulo Roberto de Almeida Freitas
Execução da obra: Adriana Rabelio Filgueiras Lima

Fornecedores

Corte e dobra de chapas: Irmãos Gravia
Aço da estrutura: Usiminas
Malhas de aço para concreto e argamassa e dramix: Belgo Mineira


Reportagem: Claudia Estrela Orto
Fotos: Leonardo Finotti

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